Análise: Parceria de Brasil e EUA sobre o clima tem muito a evoluir

por MARCELO LEITE DE SÃO PAULO

Uma parceria sobre clima entre Brasil e EUA enfrenta sérias dificuldades porque os dois países têm posições e atitudes muito díspares sobre a matéria. Os EUA vão deixando de ser o grande vilão do aquecimento global, enquanto o governo brasileiro acha que já fez a lição de casa.

Após tornarem-se párias nas negociações internacionais sobre clima a partir de 1997, por não ratificar o Protocolo de Kyoto, os EUA caminharam na direção correta. Perderam o posto de maior poluidor do planeta para a China, e não foi só porque os chineses aumentaram muito suas emissões de gases do efeito estufa (GEE).

Apesar da oposição republicana no Congresso, o presidente Barack Obama deu passos importantes. Obteve vitória na Suprema Corte para sua agência ambiental, que confirmou sua autoridade para regular os GEE. Adotou padrões mais exigentes de eficiência energética e de emissões.

Sem muito a perder na metade de seu último mandato, Obama fechou com a China, em novembro, um acordo bilateral para redução de emissões de GEE. Se não chegam a ser ambiciosas, as promessas representam um sinal encorajador para a Conferência de Paris em dezembro (que deve formular um tratado para manter o aquecimento global abaixo de 2º C).

Área destruída da Floresta Amazônica no Pará; Dilma prometeu acabar com o desmatamento no paísÁrea destruída da Floresta Amazônica no Pará; Dilma prometeu acabar com o desmatamento no país
Foto: Ayrton Vignola – 17.mai.05/Folhapress

Durante o governo Obama ocorreu a revolução do gás de xisto, que vem substituindo o carvão. Como resultado, e com ajuda da crise de 2008/09, as emissões americanas caíram 10% entre 2005 e 2012 (embora pareçam ter crescido ligeiramente desde então).

Mesmo assim, os EUA ainda contribuem com 15% das emissões mundiais de GEE. E têm um dos maiores níveis de consumo gerador de poluição, com o equivalente a 17 toneladas de CO2 por pessoa por ano (média global: 7 tCO2e/hab/ano).

O Brasil segue mais próximo da linha de base mundial, com 7,8 tCO2e/hab/ano, mas só porque sua principal fonte emissora, desmatamento, caiu cerca de 80% desde 2005. E o que é pior: a tendência é de aumento nas emissões, porque elas crescem em setores importantes da economia, como energia e agropecuária.

Apesar disso, o governo da presidente Dilma Rousseff parece sentir-se confortável sobre os louros da redução do desmate. Sim, foi a maior contribuição de um país na última década para combater o efeito estufa. E, sim, o Brasil tem uma matriz energética limpa, com 70% da eletricidade gerada por fonte renovável (contra 6% nos EUA).

Por essa razão (sem esquecer que o ministro da Ciência e Tecnologia tem dúvidas sobre a mudança climática), o Planalto titubeia diante do que seria uma meta óbvia: zerar o desmatamento até 2030.

Tal objetivo foi anunciado por Dilma em Washington com vistas a Paris, mas com uma cláusula capciosa: desmatamento “líquido” zero. Ou seja, o governo brasileiro parece inclinado a descontar da meta derrubadas que sejam legais, reflorestamento, recuperação e regeneração florestal e até as matas de áreas protegidas (que supostamente absorvem carbono).

Em outras palavras, fazer muito pouco além do que já foi feito, ou nada, daqui para a frente. Com o agravante de que, iniciando o segundo mandato em penúria financeira, com o Congresso em tumulto e sem um programa, Dilma tem mais amarras que Obama (além de má vontade) para alinhar o país com políticas avançadas para o clima.

Poucos anos atrás, uma colaboração dos EUA com o maior poluidor do mundo, a China, parecia impossível. Hoje ela encontra maiores obstáculos com um dos países mais verdes do planeta, o Brasil.

Fonte: Folha de S. Paulo > Mundo > Análise