Estudo liga conflito na Síria à seca agravada pela mudança climática

do Jornal Floripa

Traçando um dos elos mais fortes já apontados entre o aquecimento global e conflitos humanos, pesquisadores disseram nesta segunda-feira (2) que uma recente seca extrema na Síria, entre 2006 e 2009 e provavelmente em consequência da mudança climática, foi um fator no levante violento que teve início ali em 2011.

Foto: Amer Amohibany/REUTERS

A seca foi a pior sofrida pelo país em tempos modernos, e em um estudo publicado na segunda-feira, na “The Proceedings of the National Academy of Sciences”, os cientistas a atribuíram a uma tendência de um século para condições mais quentes e secas no Leste do Mediterrâneo, em vez de uma variação climática natural.

Os pesquisadores disseram que essa tendência bate com as simulações decomputador de como a região responde ao aumento das emissões de gases do efeito estufa, e que parece se dever a dois fatores: um enfraquecimento dos ventos que levam o ar repleto de umidade do Mediterrâneo e temperaturas mais quentes que causam mais evaporação.

Colin P. Kelley, o principal autor do estudo, disse que ele e seus colegas descobriram que apesar da Síria e do restante da região conhecida como Crescente Fértil serem normalmente sujeitas a secas periódicas, “uma seca assim severa era duas a três vezes mais provável” devido ao aumento da aridez na região.

Kelley, que realizou a pesquisa enquanto estava no Observatório da Terra Lamont-Doherty e agora está na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, disse que não havia causa natural aparente para a tendência de aquecimento e seca, que sedesenvolveu ao longo dos últimos 100 anos, quando o efeito dos seres humanos no clima tem sido maior.

Martin P. Hoerling, um meteorologista da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional cujo trabalho anterior mostrou um elo entre a mudança climática e a aridez no Leste do Mediterrâneo, disse que o estudo dos pesquisadores é “bastante convincente”.

“O trabalho apresenta um argumento forte para o primeiro elo na cadeia causal”, disse Hoerling por e-mail, “que é a interferência humana no clima, ser responsável por aumentar a probabilidade de seca na Síria”.

Alguns cientistas sociais, autores de políticas e outros sugeriram anteriormente que a seca teve um papel na revolta síria, e os pesquisadores também trataram disso, dizendo que a seca “teve um efeito catalisador”.

Eles citaram estudos que mostravam que a seca extrema, somada a outros fatores, incluindo políticas agrícolas e de uso de água equivocadas por parte do governo sírio, causaram perdas de safras que levaram à migração de até 1,5 milhão de pessoas das áreas rurais para as áreas urbanas. Isso, por sua vez, aumentou as tensões sociais que acabaram resultando no levante contra o presidente Bashar Assad, em março de 2011.

O que começou como uma guerra civil agora escalou em um conflito multifacetado, com pelo menos 200 mil mortos. A ONU estima que metade dos 22 milhões de habitantes do país foi afetada, com mais de 6 milhões deslocados internamente.

Os pesquisadores disseram que há muitos fatores que contribuíram para o caos, incluindo o afluxo de 1,5 milhão de refugiados do Iraque, e que era impossível quantificar o efeito de um evento isolado como a seca.

Francesco Femia, fundador e diretor do Centro para o Clima e Segurança, um grupode pesquisa em Washington que há muito argumenta que a seca síria teve um componente da mudança climática, disse que o novo estudo “se apoia em trabalhos anteriores que avaliam o impacto da seca sobre os meios de vida agrícola e pastoral”.

“Não há dúvida de que a seca exerceu um papel no deslocamento em massa de pessoas”, ele disse.

O elo entre mudança climática e conflito é debatido há anos. Um grupo de trabalho do Painel Intergovernamental Sobre a Mudança Climática escreveu em 2014 que havia “preocupação justificável” de a mudança climática aumentar o risco de conflito armado em certas circunstâncias, mas disse não ser claro quão forte era o efeito.

As forças armadas dos Estados Unidos descreveram a mudança climática como uma “ameaça multiplicadora” capaz de levar maior instabilidade a partes do mundo.

Estudos anteriores mostrando um elo entre mudança climática e conflito foram refutados por alguns cientistas, e não está claro o quanto este novo estudo contribuirá para resolver a questão.

Thomas Bernauer, um professor de ciência política do Instituto Federal Suíço deTecnologia, em Zurique, que criticou alguns dos estudos anteriores, disse também ser cético a respeito deste.

“A evidência para a alegação de que essa seca contribuiu para o estouro da guerra civil na Síria é muito especulativa e não apoiada por evidência científica robusta”, ele escreveu por e-mail.

Mark A. Cane, um autor do estudo e um cientista do Lamont-Doherty, que faz parte da Universidade de Columbia, defendeu o trabalho. “Eu acho que há um caso muito bom aqui”, ele disse. “Mas acho que tentamos explicar que a conexão de um eventoclimático extraordinário ao conflito é complexa e certamente envolve outros fatores”.

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