Com aquecimento global, insetos famintos ameaçam segurança alimentar

do O GLOBO

Perdas agrícolas em três cultivares fundamentais – arroz, milho e trigo – podem aumentar em 10% a 25% a cada grau de subida da temperatura


Plantação de trigo: geralmente cultivado em países mais frios, grão será o mais atingido
Foto: Keith Ewing

Rio de Janeiro – As perdas agrícolas em três cultivos fundamentais de grãos – arroz, milho e trigo – podem aumentar substancialmente com o aquecimento global à medida que as temperaturas mais altas elevam as taxas metabólicas e a população de insetos, indica estudo publicado nesta quinta-feira na prestigiada revista “Science”.

– As mudanças climáticas terão um impacto negativo nas plantações – resume Scott Merrill, pesquisador da Universidade de Vermont, nos EUA, e coautor do estudo. – Com estas mudanças, vamos ver uma maior pressão de pestes como estas.
Na pesquisa, os cientistas analisaram como os insetos atacariam as plantações dos três grãos sob diferentes cenários climáticos. Eles verificaram que o aumento na temperatura global elevaria as perdas causadas por estas pestes, especialmente em regiões temperadas, na ordem de 10% a 25%.
Segundo os pesquisadores, o incremento nas perdas virá primeiro de uma maior “fome” dos insetos devido à aceleração de seu metabolismo, num processo bem direto.

– Quando a temperatura aumenta, o metabolismo dos insetos também aumenta, então eles têm que comer mais – explica Merrill. – E isso não é nada bom para as plantações.
Já a ligação do aquecimento global com o aumento da população de insetos é mais complexa. Estes animais tê uma temperatura ótima para se reproduzir, e se ela for muito fria ou muito quente a população cresce mais devagar. E é por isso que as perdas agrícolas serão maiores nas regiões mais temperadas do planeta, e menos severas nos trópicos, destacam os cientistas.

– As regiões temperadas não estão nesta faixa ótima da temperatura, então se a temperatura aumentar nelas, as populações vai crescer mais rápido – diz Merrill, ecologista especializado em interações de cultivares. – Mas os insetos nos trópicos já estão perto desta temperatura ótima, então lá as populações vão na verdade crescer mais devagar. Será muito quente para eles.
De acordo com o estudo, o trigo, que tipicamente é cultivado em países de clima mais frio, vai sofrer mais à medida que o aumento nas temperaturas elevam o metabolismo dos insetos, assim como a população da peste e suas taxas de sobrevivência aos invernos. Por sua vez o milho, que é cultivado em áreas onde a população de insetos vai aumentar e em outras em que ela vai diminuir, tem um futuro mais desequilibrado.
Já com o arroz, na maior parte cultivado em ambientes tropicais quentes, as perdas agrícolas na verdade serão estáveis se o aumento da temperatura global passar dos 3 graus Celsius, com a queda na população de insetos contrabalançando o aumento em seu metabolismo.

– As perdas no arroz alcançarão um patamar se a elevação na temperatura passar de um determinado ponto – diz Merrill.
Isso significa, porém, que a maior parte das quedas na produtividade acontecerá justamente em algumas das regiões agrícolas mais produtivas do planeta.

– O cenário geral é que, se você está plantando muito alimento numa região temperada, será atingido mais fortemente – destaca Merrill.
França, China e EUA, que produzem a maior parte do milho do mundo, estão entre os países que devem enfrentar as maiores perdas para os insetos. França e China, que também são grandes produtores de trigo e arroz, respectivamente, também devem sofrer grandes prejuízos nas colheitas dos grãos.
A produtividade menor nestes três cultivos fundamentais é de particular preocupação porque muitas pessoas ao redor do mundo depende deles. Juntos, estes grãos respondem por 42% das calorias diretas consumidas por humanos e as perdas agrícolas maiores devem resultar em maior insegurança alimentar, especialmente em regiões onde ela já é maior, desencadeando conflitos.
Os fazendeiros já estão se adaptando às mudanças climáticas com alterações na época da semeadura e troca de cultivares, mas terão que encontrar novas maneiras de também enfrentar o reforço no ataque das pestes, seja introduzindo novos revezamentos entre cultivares ou aumentando o uso de agrotóxicos. Mas muitas destas estratégias não estão disponíveis para muitos fazendeiros, em especial nos países mais pobres.

– Há muito que os países ricos podem fazer para reduzir este efeito, seja aumentar o uso de pesticidas ou introduzir estratégias de gestão integrada de pestes – avalia Merrill. – Mas os países pobres que dependem destes grãos básicos enfrentarão tempos difíceis.

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Fonte: O GLOBO > Notícias > Sustentabilidade