Laboratório da CETESB usa biosensores para detectar hormônios em águas

A CETESB mais uma vez sai na frente. Desta vez, preocupada com a presença, em rios e águas subterrâneas, dos chamados interferentes endócrinos, a Agência Ambiental Paulista incluiu a avaliação da presença dessas substâncias no rol de análises do monitoramento de qualidade das águas subterrâneas. Esses compostos são capazes de interferir na ação dos hormônios, são de diversas naturezas como hormônios naturais (estradiol, estriol, estrona) e sintéticos (etinilestradiol, utilizado em anticoncepcionais), plastificantes como o bisfenol A, pesticidas como o DDT ou ainda produzidos por plantas, como a genisteína. Esses compostos não são removidos completamente pelos processos convencionais de tratamento de efluentes e podem atingir os corpos d’água.

A inovação foi iniciativa do Setor de Análises Toxicológicas (ELTA), do Departamento de Análises Ambientais, que em 2007 realizou com a UNICAMP projeto de pesquisa da Fapesp (Fundação da Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), para verificar a ocorrência dos interferentes endócrinos em águas para consumo humano em mananciais do Estado.

Este projeto propiciou a aquisição de equipamentos, treinamentos internacionais com especialistas dos Estados Unidos e Inglaterra, e treinamento “in company” ministrado pela pesquisadora da Universidade do Tennessee, Dra. Melanie Eldridge. Assim, foi implantado no Setor o ensaio BLYES (Bioluminescent Yeast Estrogen Screen), que emprega leveduras geneticamente modificadas, que funcionam como biosensores, isto é, são capazes de detectar a presença de interferentes endócrinos por meio de emissão de luz.

O projeto, concluído em 2011, constatou que águas superficiais com baixo IQA (Índice de Qualidade das Águas), como o Rio Cotia, na Região Metropolitana de São Paulo, apresentaram interferentes endócrinos, principalmente em função dos esgotos domésticos. Por outro lado, as amostras de água tratada proveniente da ETA (estação de tratamento de água) abastecida pelo Rio Cotia demonstraram a ausência dos compostos, fato provavelmente associado à cloração. Nas amostras de águas subterrâneas, foi detectada presença em baixas concentrações.

Esses estudos ainda são preliminares e requerem mais pesquisa e uso da técnica, segundo Gilson Alves Quináglia, gerente do ELTA. Ele lembra que a comunidade científica ainda não elucidou completamente os efeitos adversos causados por essa classe de compostos em humanos, mas sua ação sobre organismos aquáticos é conhecida. Exemplar é o caso da diminuição do número de jacarés nos lagos da Flórida, quando um toxicologista americano, em 1996, ligou o problema aos efeitos do DDT na reprodução e sistema endócrino dos animais.

Com base nos resultados obtidos no projeto, a CETESB passou a avaliar a presença destes compostos no monitoramento de águas subterrâneas, sendo a primeira agência ambiental no Brasil a fazê-lo. Os dados devem ser analisados a longo prazo, sendo que a primeira avaliação conclusiva deverá ocorrer daqui a três anos.

Em 2013, o ensaio será utilizado também nas águas superficiais, com vistas à proteção da vida aquática, em aproximadamente 40 pontos no Estado de São Paulo. Num futuro breve, novos biosensores para identificação de outras substâncias como dioxinas, deverão ser acrescidos ao trabalho.

Texto: Mário Senaga