Entrevista com a Qui. Dra Cacilda Jiunko Aiba

A Qui. Dra. Cacilda Jiunko Aiba atuou na CETESB entre agosto de 1978 e dezembro de 2007, sempre dedicando-se aos desafios da Química Analítica Ambiental, atividade na qual se destacou como uma das pioneiras no País. Além de técnica e pesquisadora foi também gerente do Setor de Análises Orgânicas e da Divisão de Análises Físico Químicas da empresa, tendo sido responsável direta pela modernização do sistema de qualidade analítica e a obtenção da acreditação do INMETRO para os laboratórios de Química. Teve participação direta e decisiva na implantação do Laboratório de Dioxinas e Furanos, o que permitiu à CETESB ser escolhida como centro de referência da Convenção de Estocolmo para poluentes orgânicos prioritários.
Nesta entrevista, concedida por e-mail, ela nos fala sobre sua experiência ao longo dos anos que aqui passou.

Fórum : Dra. Cacilda, sua formação acadêmica, tanto graduação em Química quanto o doutorado, se deu na Universidade de São Paulo. Naquele período como a Sra. se sentia tendo como orientador o notável Prof. Dr. Otto Gottlib, pesquisador inclusive cotado para o Nobel de Química?
Dra. Cacilda : Quando me formei eu tinha que me decidir qual o caminho que gostaria de seguir. Dentre as opções mais diretas estavam: lecionar química no segundo grau, trabalhar na indústria, tentar seguir a carreira acadêmica ou trabalhar em algumas das Instituições de Pesquisa. Destas opções o que mais me agradava era fazer algum trabalho ligado à pesquisa. Naquele momento, o Instituo de Química estava criando uma nova área de pesquisa, a de produtos naturais, coordenado pelo Dr. Otto Gottlieb. Achei interessante e me inscrevi na pós graduação sob a orientação do Dr. Otto Gottlieb. O Dr. Otto era uma pessoa bastante conhecida internacionalmente e tinha em seu curriculum um número enorme de trabalhos publicados e era também uma pessoa simples e de fácil trato. Talvez fosse exatamente assim pelo fato de ser grande em seu trabalho científico. A notícia de que ele foi cotado para o Nobel de Química veio depois de eu ter me desligado do Instituto de Química, porém fiquei muito contente pela sua indicação.

Fórum : Quais foram suas motivações para deixar a carreira acadêmica e se transferir para a CETESB, empresa com proposta profissional bastante diferente da pesquisa científica em produtos naturais?
Dra. Cacilda : Quando terminei a pós graduação acabei me desligando da carreira acadêmica basicamente por não gostar muito de dar aulas o que seria necessário tanto na USP ou em qualquer outra Universidade. Optei então em procurar um emprego em alguma Instituição. Trabalhei um curto período no Instituto de Pesquisas Tecnológicas e fui depois convidada a trabalhar na CETESB. Embora o trabalho de pesquisa em produtos naturais pareça ser muito diferente das atividades na CETESB, as técnicas analíticas empregadas na minha tese foram de fundamental importância. Obviamente foram necessárias adaptações mas as técnicas empregadas seguiam o mesmo raciocínio.

Fórum : Em 1978, quando do início de sua carreira na CETESB o País já respirava os primeiros ares da redemocratização. Qual é a sua percepção atual sobre a importância daquele momento para a CETESB?
Dra. Cacilda : Não tenho uma ideia clara entre redemocratização e a sua influência na CETESB. Da época do início da minha carreira, ficou em minha memória o grande Projeto de Despoluição de Cubatão. Acho até que foi um dos pontos altos da CETESB que fez com que ela se tornasse mais visível ao público em geral. Se não me engano este projeto foi possível devido ao apoio do Governador Franco Montoro .

Fórum : O que a Sra. pode destacar como acontecimento ou realização relevante para o crescimento da CETESB durante o período que atuou na empresa?
Durante o período que atuei na CETESB, muitos projetos que aumentaram visibilidade da CETESB foram realizados, tais como o projeto da despoluição do Tietê que envolveu bastante os nossos laboratórios, o do controle das emissões veiculares, o controle das emissões de caminhões durante o período de inverno, o controle da poluição do rio Cubatão dentre outros. Além destes projetos, o que chama a atenção são setores da CETESB que ao longo destes anos cresceram tecnicamente de forma sistemática permitindo a criação ou modernização de procedimentos para a melhoria do monitoramento e do controle ambiental. A empresa tem crescido ao longo destes anos em grande parte como resultado do crescimento de seus técnicos.
Fórum : Como se deram os primeiros passos de sua carreira na CETESB, uma empresa cujo staff profissional era prioritariamente masculino? Pode destacar algum profissional da casa que tenha influenciado positivamente sua carreira.
Dra. Cacilda : Um dos aspectos que me chamou a atenção no início de minha carteira na CETESB foi o fato do laboratório ter um staff profissional prioritariamente masculino. Entretanto, os colegas que foram contratados na mesma época que eu, o gerente de Divisão e o gerente do Setor de Análises Especiais (atual Setor de Análises Orgânicas) eram colegas meus da Faculdade na graduação ou na pós graduação. Este fato me deixou completamente à vontade. Nunca sofri nenhum tipo de discriminação e depois com a lei que exige concurso público para a contratação de funcionários esta preferência por um staff profissional masculino deixou de ser possível.
Fui contrata para trabalhar no Laboratório de Análises Especiais. Este laboratório fazia análises que eram solicitadas para dar apoio a diversos setores da empresa, porém, não tinha uma característica própria. Como a minha formação profissional era relacionada com orgânica, o então gerente de Divisão, Qui. Renato Amaral, me pediu que verificasse o que poderia ser feito nesta área. Pesquisei os trabalhos realizados principalmente na EPA que levou à identificação de compostos orgânicos prioritários, compostos estes que deveriam ser controlados no meio ambiente. Com estas informações, o Qui. Renato Amaral, nosso gerente de divisão, decidiu montar um Seminário Internacional sobre o assunto para divulgar a importância do tema. Este foi o início da minha carreira na CETESB. Neste ponto, devo agradecer ao Qui. Renato Amaral a oportunidade e a liberdade que me deu para desenvolver o tema.

Fórum : Muitas vezes nossas decisões vem amparadas em fatos relevantes de nosso histórico de vida. Sua vinda para a CETESB teve alguma conexão deste tipo?
Dra. Cacilda : A decisão de trabalhar na CETESB se deveu a fatos que vem de minha infância. Meus pais eram japoneses e durante a guerra tiveram que se mudar para a periferia da cidade de São Paulo pois o Japão era um inimigo do Brasil. Meus pais então decidiram morar no bairro Jabaquara, na época cercado de matas por todos os lados. Fui então criada no meio do mato, praticamente uma vida num sítio. Vivia no mato colhendo frutas silvestres além de outras plantas comestíveis. Em muitos finais de semana, passeávamos pelas matas vizinhas com meu pai. O gosto que tenho pela natureza vem desta minha infância. Achei então que trabalhar em uma empresa que visa minimizar a poluição era uma ideia bastante atraente.

Fórum : O que a Sra. pode destacar como desafio relevante para o seu crescimento na CETESB?
Dra. Cacilda : Logo que comecei o trabalho deu para perceber que os laboratórios tinham uma grande quantidade de análises tornando o seu dia a dia bastante pesado não sobrando muito tempo para desenvolver métodos novos, introduzir novas instrumentações entre outras atividades. Estas condições não eram muito atraentes para muitos técnicos que procuraram outras atividades ao longo do tempo. A satisfação pessoal teria que vir da consciência de que por mais simples que fosse a análise executada era importante para a área que a solicitava e que os dados analíticos eram necessários para que se pudesse fazer um diagnóstico da qualidade ambiental bem como tomar as decisões pertinentes nos casos de controle ambiental. Como as solicitações vinham de diversas áreas da CETESB, eu particularmente aprendi muito com os técnicos com os quais tive contato o que facilitou na definição dos rumos que nós teríamos que seguir. Este rumo ou foco a seguir eu jamais abandonei.
Fórum : Uma carreira de sucesso se dá pelo desempenho profissional mas muito também pela satisfação pessoal e relacionamento humano. O que a Sra. pode destacar em seu histórico sobre este aspecto em particular? Há alguma situação ou caso interessante que queira destacar?
Dra. Cacilda : Certamente que o relacionamento humano tem importância fundamental, porém este fator não é específico de laboratório, mas de qualquer atividade profissional e talvez um dos mais difíceis de gerenciar. Outro aspecto relacionado com recursos humanos que causou dificuldades foi a quase ausência de um plano de carreira cuja solução não depende da gerência e muitas vezes nem da CETESB. Estas dificuldades fazem com que aos poucos o quadro de técnicos diminua tornando difícil a manutenção do montante de análises comumente realizadas.

Fórum : A partir de 1992, quando a Sra já assumia a Gerência da Divisão de Análises Físico-Químicas a CETESB recebeu um considerável aporte de novos profissionais, aumentando para os antigos técnicos da empresa os desafios da convivência e as responsabilidades quanto a formação das novas gerações de profissionais de meio ambiente. O que esta nova realidade significou para a Sra. naquele momento em especial?
Dra. Cacilda : Em 1992 foram contratados um grande número de funcionários para resolver o problema do quadro de técnicos. Foi para mim um grande alívio poder contar novamente com um número maior de funcionários mas ao mesmo tempo um problema. O treinamento de técnicos nos diversos setores do laboratório leva vários anos para ser concluído e durante este tempo é necessário formar duplas para trabalharem juntos permitindo assim a transferência do conhecimento de um para o outro. Os gerentes tiveram um papel fundamental neste processo e o resultado positivo alcançado deveu-se ao empenho deles na montagem de uma equipe coesa. Este processo como um todo levou o tempo que eu imaginava e durante este período ocorreram também perdas esperadas de técnicos devido à transferência para outros setores ou demissão. Este processo formou uma equipe mais jovem, mais aberta a mudanças. Esta característica se mostrou clara quando partimos para a modernização das metodologias analíticas e para a implementação do sistema de qualidade (ISO 1725). O ideal seria uma reposição gradativa do corpo técnico de forma a não ocorrer interrupções nas atividades de rotina.

Fórum : Psicológica e emocionalmente, como se deu seu processo de desligamento da CETESB, que ocorreu em 2007? Sei que para aqueles que diariamente trabalhavam com a Sra. sua saída só não deixou um vácuo maior pela feliz indicação de sua substituta, a Dra Maria Tominaga, sua discípula na Química.
Dra. Cacilda : Minha aposentadoria ocorreu em 2007. Muitos dizem que a aposentadoria traz problemas emocionais pelo fato de ficar repentinamente sem o ir e vir ao local de trabalho. No meu caso em particular, esta ocorreu sem nenhum problema psicológico ou emocional. Achei que estava na hora de transferir para uma outra pessoa o trabalho que vinha realizando e de ter um tipo de vida diferente fora do emprego. Estou hoje exatamente onde gostaria de estar, na natureza cercada de árvores, flores, pomar, horta e com as minhas mãos na terra. Gostaria de parabenizar Dra Maria Tominaga que me substituiu na Divisão de Análises Químicas pelo excelente trabalho que vem desenvolvendo e desejar que seja muito feliz no desempenho de suas funções.

Fórum : O Fórum de Químicos da CETESB teve o imenso privilégio de poder homenageá-la em sua Galeria de Honra, quando das comemorações do Ano Internacional da Química-2011. Gostaríamos de sempre poder contar com sua presença em nossos eventos e agradecemos pela entrevista. Encerremos com sua considerações.
Dra Cacilda : Trabalhei durante quase todo a minha vida profissional na CETESB. Durante este período tive momentos bons e momentos ruins como tudo na nossa vida. Porém, os momentos ruins não foram ruins o bastante para que me fizesse mudar de emprego. Para finalizar, gostaria de dar um grande abraço à Maria Yumiko Tominaga, ao Francisco Jorge Ferreira, à Neusa Akemi Niwa e a todos os técnicos dos laboratórios e desejar que continuem motivados, realizando um trabalho de excelência da mesma forma que vem ocorrendo nestes últimos anos.